por Aldo Santos
Recentemente assisti novamente o documentário sobre o significado Filosófico e Sociológico de 1968, seu impacto na política, no comportamento ético/moral e na quebra de paradigmas que aquele movimento representou e representa em nossos dias atuais. Esse documentário tem quatro episódios, a saber:
Somos jovens e queremos mudar o mundo;
Quando a Rua faz a história;
Quando as diferenças fazem a história; e
Quando as Heranças fazem a história.
Esse documentário foi apresentado 2008, pela rede globo de televisão. O que me chamou atenção foram as imagens e as análises de importantes historiadores, sociólogos, filósofos e militantes que viveram e comentaram aqueles fatos memoráveis. Mais uma vez a expressão da pólis se fez presente no epicentro dos acontecimentos, provocando novos desafios na luta pela sobrevivência e superação, numa antítese inovadora, numa síntese inconclusa e uma nova TESE com lampejos do imponderável. Paradigmas foram desconstruídos e a educação tradicional foi desnudada. Em novos patamares, os “cavaleiros da esperança educacional” se vêem diante de novos desafios e obrigados a pensar e repensar rumos e caminhos em busca da construção de de conceitos e valores renovados pela dinâmica do novo momento que nos atribui responsabilidades com proficiência. Submetido a “lei natural” na luta pela sobrevivência, algumas profissões deixaram de ter sua importância, enquanto outras surgiram para atender as necessidades do mercado, levando em conta necessariamente, os valores até então arraigados e padronizados em que fomos formados e, de certa forma, ainda são teimosamente preservados.
Dentre as profissões que sofreram grandes modificações, encontram-se o professor, que na disputa com as novas referências, exigências e tecnologias, os mesmos são testemunhas de uma nova sociedade marcada pela desconstrução de sua imagem, pelos sucessivos governos no Estado de São Paulo e no Brasil, e ainda, vítimas de todas as formas de violência e abandonados a sua própria sorte com um giz na mão, um apagador que pouco apaga, uma lousa frequentemente esburacada e a voz perdida e silenciada no barulho das mudanças emergentes, tendo a sua frente uma nova geração com valores e leituras de mundo absolutamente antagônica aos atores desse teatro humano.
Os governantes se preocupam em responder as demandas de mercado com novas tecnologias, novos conceitos e valores, com objetivos literalmente econômicos, deixando a beira da estrada, uma profissão que em qualquer sociedade é merecedora de respeito, acolhimento e valorização humana. A lição que podemos extrair da nota da APEOESP, Subsede de Sbcampo, se traduz num apelo dramático que representa novos desafios aos educadores, que, como se não bastasse os ataques das políticas governamentais, da desvalorização profissional e da desconstrução da sua imagem perante a sociedade com as famigeradas políticas de mérito, número excessivo de alunos por sala de aulas, a desestruturação nuclear da família, ainda coloca o profissional da educação como o testa de ferro do ódio e fúria coletiva da representação simbólica do Estado e dos governantes, haja vista que estamos nos referindo aos professores da rede pública nos Estados do Brasil.
A fúria ilimitada de adolescentes, por si só demonstra a base cultural e os pilares educacionais que historicamente nos deparamos.“COMO SE NÃO BASTASSE OS CONSTANTES ATAQUES DOS GOVERNANTES AOS NOSSOS DIREITOS, ALUNOS DA ESCOLA SENADOR ROBERT KENNEDY CRIAM COMUNIDADE DE RELACIONAMENTO “Odeio professor Patinhas” PARA DEPRECIAR O PROFESSOR AUGUSTO DA REFERIDA UNIDADE ESCOLAR. O OBJETIVO DA COMUNIDADE, SEGUNDO OS PROPONENTES É: “ ... para as pessoas que odeiam aquele FDP professor patinhas do Kennedy, aquele velho safado que já prejudicou muita gente, e adora mandar!!! Se você odeia ele participe dessa comunidade!! Odiamos o pato!! Dedico essa comunidade para as pessoas que se fufu na mão dele!!” CONSTA AINDA NA COMUNIDADE UMA ENQUETE COM AS SEGUINTES ALTENATIVAS:( ) Queimar o resto de cabelo que ele tem kk ( ) Jogar o apagador no lixo (ele fica louco kk) ( ) Colocar cola na cadeira ( ) Quebrar o óculos deleO SINDICATO ATRAVÉS DO DEPARTAMENTO JURÍDICO ATENDEU NESTA DATA O PROFESSOR AUGUSTO, VÍTIMA DE BULLYNG, CRIME CONTRA PESSOA E HONRA. O MESMO FOI ORIENTADO AINDA A REGISTRAR UM BOLETIM DE OCORRÊNCIA; ENCAMINHAR O FATO AO CONSELHO TUTELAR; ENCAMINHAR OFÍCIO À UNIDADE ESCOLAR E DIRETORIA DE ENSINO PARA QUE TOMEM AS MEDIDAS NECESSÁRIAS EM DEFESA DO PROFESSOR AGREDIDO.O SINDICATO NÃO MEDIRÁ ESFORÇOS PARA EVITAR QUE FATOS DESSA NATUREZA VENHAM OCORRER. AO MESMO TEMPO, DEVEMOS DESENVOLVER UMA AMPLA CAMPANHA JUNTO AOS EDUCANDOS SOBRE OS DIREITOS E DEVERES, RESTABELECENDO ASSIM, AS EFETIVAS CONDIÇÕES DE TRABALHO E RESPEITO AOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO.” ( COORDENAÇÃO DA APEOESP SUBSEDE DE SÃO BERNARDO DO CAMPO).
Essa realidade não é um caso isolado no cotidiano dos educadores no ambiente da escola. As mais diferentes teorias da educação são produzidas, via de regra, distantes do tablado dos conflitos em que se encontram os educadores brasileiros. Filhos questionando os limites postos, professores desafiados como se responsáveis fossem pelos desmando e desestruturação da sociedade, gestores muitas vezes incapazes e limitados diante da falta de estrutura governamental, que, sequer um muro de lamentação existe para desaguar ou consolar as mágoas cotidianas que não são poucas, as representações sindicais normalmente estão voltadas para outros interesses, além de ínfimos investimentos e de inúmeras outras mazelas que nos deparamos no cotidiano escolar e na vida da comunidade.
Os modelos pedagógicos não respondem as novas modalidades e expectativas da juventude ávida por um novo mundo, que não é seguramente o que vivemos, e, certamente não será o que muitos tentam equivocadamente desenhar, ferindo e humilhando a figura desvalorizada, fragilizada e igualmente conturbada dos educadores desassistidos neste país.
Os educadores devem responder a essa e todas as outras formas de agressão, mas especialmente os professores de filosofia e sociologia precisam desdogmatizar os conhecimentos, reverem conceitos “consagrados” de aparente neutralidade nos livros e cadernos didáticos, buscando catalogar, identificar, refletir e agir diante dos conflitos existentes. Nesse sentido, se faz necessário uma resposta urgente dos educadores no sentido de construir pontes e pactos educadores-educandos, buscar respostas com base nas teorias existentes, ou negá-las diante da ineficácia e do caráter obsoleto que as mesmas expressam.
É urgente retomar a análise pedagógica a partir de categorias fundantes como o trabalho, como base na leitura e na transformação material do mundo em que vivemos. Devemos ainda desenvolver pedagogias militantes e transformadoras, objetivando transformar o mundo de fato, sem se limitar as pseudos correntes ideológicas e pedagógicas historicamente transformadas em correia de transmissão do conteúdo do Estado Burguês. De uma coisa tenho certeza, esse modelo educacional está combalido e se é tão difícil apontar e construir o novo, difícil e impossível também é manter o atual, pois este só serve as novas bases e lógica de mercado diante das exigências do capitalismo atual.
Para ser conseqüente, o ato de educar exige: politizar nossas aulas, contextualizar nossas fontes, identificar os conflitos cuja causa é o carcomido modelo econômico capitalista que se expressa nos interesses antagônicos da luta de classe e não apenas reproduzir os conteúdos expressos nos livros didáticos das editoras e dos cadernos doutrinários dos governos. Não adianta esperar tão somente pelo governo, pois o mesmo atua com base em suas demandas e perspectivas eleitorais. É urgente uma ação ordenada dos partidos de esquerda, movimentos sindicais comprometidos, movimento estudantil e popular e, combinado com a ação determinante da juventude que estuda e trabalha, que são as vítimas do hoje, os sem futuro do ontem e os sem perspectiva do amanha. Urge avançar na desconstrução desse mundo edificado, tendo como base as novas exigências de uma sociedade politicamente diferente, economicamente inclusiva e humanamente portadora da felicidade do hoje – amanha; diametralmente antagônica a sociedade capitalista.
Hipotecamos nossa solidariedade aos bravos professores que resistem valentemente a todas as formas de ataques, que, assim como os educandos, são igualmente vítimas dos governos que tem feito de tudo para acabar com essa importante conquista que foi e é a universalização da escola pública para os filhos da população brasileira, cuja ofensiva permanente dos governantes vai no sentido de sucateá-la e restringi-la ainda mais,comprometendo assim qualquer perspectivas, de ascensão e relativa disputa no mercado.
Educar é preciso!!!
Aldo Santos-Ex-vereador em SBC, Coordenador da Corrente Política TLS, Presidente da Aproffesp, membro do Coletivo Nacional de Filosofia e da Executiva Nacional do Psol.